Espaço para pequenos relatos dos dramas, misérias e graça do cotidiano. Instantâneos do dia-a-dia que nunca lograram acontecer, mesmo que às vezes pareça o contrário...
E, claro, poesia.
Estava exausto; como, aparentemente, exausta estava a paisagem a sua volta. O excesso de folhas amarelecidas deitadas ao chão denunciava o trabalho do outono. Sentiu na pele a aragem gélida: o vento traficava já o inverno em seus moinhos. No mesmo instante um gomo de flor despenca sobre o solo e assusta o pequeno pássaro que pousado nele estava. Teve pena do pássaro, teve pena de si mesmo. Se lhe fosse permitido, choraria. Marchas, batalhas, esforços, vitórias... tudo consumia-se no vazio. Todos os atos a que era compelido, esgotara-o. O centurião rumou na direção do rochedo, afastando-se ainda mais do acampamento. Com gestos calmos despojou-se de todas as armas; lançou-as ao abismo. A terra as recebeu com um quase inaudível baque. “Não lutarei jamais”, disse. Trazia inscrita em sua proteção de couro a marca sagrada do peixe. “Eu visto a verdade”. A noite chegava, julgou que gritavam seu nome. Pôs-se de pé. “Não poderão demover-me”. À beira do penhasco via vultos se aproximarem. O que queriam dele? Perdoar-lhe-iam o extravio das armas? Não sabia. Por segundos olhou o imenso vale que se abria a sua frente. Resistiria. Teve a certeza de que, dali para frente, independente da vontade alheia, mudaria seu caminho: vertiginosamente.
Homem de uma frugalidade incrível; ficava dias sem comer. Para o dono do circo, um funcionário perfeito. Econômico, uma boca a menos para alimentar, praticamente. Ninguém sabia de onde havia vindo. Era quase sempre sério e calado. Esquivo durante o dia, desaparecido à noite.
O atirador de facas, olhar de esguelha e temperamento de gato, cativara os colegas em pouco tempo. "Tem horas que parece odiar tudo isso aqui", disse um. "Mas não é má pessoa", emendou.
Na cidade X estrearia o novo número. Uma linda moça comporia o quadro; clássico antialvo a extremar o suspense. Já na primeira noite o sucesso esplende. Segundo dia, audiência lotada. Em meio a restos de aplauso, a terceira faca vara o espaço. O rumor ínfimo do ar deslocado, o susto da moça, o átimo, o jovem coração traspassado.
Absoluto silêncio. Cabisbaixo, o atirador retira-se. Mórbido picadeiro... Vai-se a plateia, a trupe em prantos.
Na boca da noite deu-se o enterro. Broto de vida atravessado pelo infortúnio... Todos presentes, menos o atirador. Vagava na escuridão.
Em suas camas, os artistas tentam dormir. Madrugada alta, o líder mambembe e proprietário do circo sai às cercanias em busca do involuntário assassino. Deseja consolá-lo. Longa procura. No céu a lua crescente, irônico riso de Urano, luzia. Noturnos ruídos...
Viu-o comendo. Atônito, os olhos do dono olhavam a esdrúxula cena. O atirador, absorto, comia. Na verdade devorava, com inédita gula, as desenterradas e tenras carnes da linda moça.
Muito mística, embrenhou-se em rituais mágicos esquecidos. Em meio ao mais rotundo desespero, quando soube que era para sempre sua solidão, migrou para a floresta. Numa pequena cabana preparou-se para a hora fatídica, para o dia do alívio, no qual consumação e coragem se conciliariam. Era o dia de pedir permissão à morte para deixar a vida. E assim ela fez - numa manhã de uma luminosidade tão diáfana que parecia que o mundo inteiro era um sonho. Uma leve brisa correu ao redor, folhas fizeram seus ruídos... Contudo a morte lhe negou a vontade. Deixou-a só com suas pedras e horas excessivas. E ela viveu muitos, mas muitos anos ainda. Incapaz de morrer.
PS: Tais contos minimalistas surgem da reunião daquilo que estão chamando de minicontos, ou microcontos. O Twitter é meu pergaminho para experimentá-los... Assim, esses contos muitas vezes surgem aos poucos, desdobrando-se nos dias. Quem quiser vê-los em gestação, pode ir ao Twitter e buscar por josiasgeo...