quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Contos Minimalistas



Mudança de estação


Estava exausto; como, aparentemente, exausta estava a paisagem a sua volta. O excesso de folhas amarelecidas deitadas ao chão denunciava o trabalho do outono. Sentiu na pele a aragem gélida: o vento traficava já o inverno em seus moinhos. No mesmo instante um gomo de flor despenca sobre o solo e assusta o pequeno pássaro que pousado nele estava. Teve pena do pássaro, teve pena de si mesmo. Se lhe fosse permitido, choraria. Marchas, batalhas, esforços, vitórias... tudo consumia-se no vazio. Todos os atos a que era compelido, esgotara-o. O centurião rumou na direção do rochedo, afastando-se ainda mais do acampamento. Com gestos calmos despojou-se de todas as armas; lançou-as ao abismo. A terra as recebeu com um quase inaudível baque. “Não lutarei jamais”, disse. Trazia inscrita em sua proteção de couro a marca sagrada do peixe. “Eu visto a verdade”. A noite chegava, julgou que gritavam seu nome. Pôs-se de pé. “Não poderão demover-me”. À beira do penhasco via vultos se aproximarem. O que queriam dele? Perdoar-lhe-iam o extravio das armas? Não sabia. Por segundos olhou o imenso vale que se abria a sua frente. Resistiria. Teve a certeza de que, dali para frente, independente da vontade alheia, mudaria seu caminho: vertiginosamente.

9 comentários:

Anônimo disse...

Muito interessante e simbólico. Parabéns pelo blog.
Você tem algum livro publicado?

Thomás.

Magna Santos disse...

Josias, veja o que achei sobre o outono:"é no outono que ocorrem as grandes colheitas, visto que as frutas já estão bastante maduras e começam a cair no chão"(http://www.brasilescola.com/geografia/outono.htm). Parece que,assim como as árvores, o centurião deixou transformar-se pela estação e jogou suas armas, como frutas,melhor dizendo, como folhas amareladas e secas...sem vida. O amadurecimento às vezes dói mesmo, é certo, mas com um imenso vale à frente,quem precisa de vitórias, brasão? Só não vale cair do penhasco.
Que lindo, camarada. Que lindo este conto!
Abraço.
Magna

Canto da Boca disse...

É uma absurdidade, um escândalo! Escreves de forma tão envolvente que é impossível ler apenas uma vez, mas uma leitura que nos engole muitas vezes e cada uma delas, distintas.
Um texto cheio de metáforas e simbologias.
Uma escrita sofisticada e que não cansa o leitor.
Abraço!
;)

Luna Freire disse...

Pois é, Josias. Estou assim: à beira do penhasco. E, quando a gente está assim, olhos vidrados no fundo do poço, vê apenas o poço, não a água. Quando os tempos são de trevas, nossos olhos cegam para a luz que está tão clara... Como o centurião, estou me desfazendo de minhas armas, que perderam sua capacidade de resistir. Buscarei outras.

Magna Santos disse...

Já pode matar sua curiosidade. Acabei de publicar o final do conto.
Abração.
Magna

Hérlon Fernandes Gomes disse...

Gostei da ideia dos contos minimalistas, como instantâneos da vida e da alma.
A vida vez por outra nos coloca à beira do penhasco... Esse fundo dá medo, tenta e às vezes nos faz descobrir que possuímos asas.
Parabéns pelo blog!

Zé da Goma disse...

Que cara preguiçoso, meu véi! Vive dos dividendos que a fama adquirida lhe proporciona. Jonatas

Zé da Goma disse...

Que cara preguiçoso, meu véi! Vive dos dividendos que a fama adquirida lhe proporciona. Jonatas

Ana disse...

Tudo o que eu ia falar, a Boca já expressou. Geó: você, sua poesia, sua veia sarcástica, seu olhar para a vida são singulares. Nos envolve com um carisma revelador e nos põe a pensar. É a diferença do escritor e o poeta, Poeta.
Abraço.