sexta-feira, 12 de outubro de 2007

En passant

Quando olhava fixamente para seu adversário, tinha sincera vontade de rir: o nervosismo dissimulado com elegância, a arrogância respeitosa, a alma absolutamente arrebatada na ambigüidade daquele momento. Que sofrimento daquele pobre diabo!
Há exatos vinte e dois anos era campeão mundial; de certa forma, quando agora mirava seu oponente, julgava ver nele uma cópia sua de mais de vinte anos passados, quando tinha quarenta e cinco anos e se julgava jovem, e ao mundo importante. E isso o irritava ainda mais.
Durante todos esses anos fora exaltado e vivera sob o peso da mais circunspeta respeitabilidade pública. Fora um tempo exaltado e extenuante, de estudo contínuo, teorização e probabilidades. Portanto, essa última partida do Match, o jogo de desempate, soava-lhe como um alívio. E deixou-se absorver por raciocínios estranhos à situação, pelas memórias de uma vida que acreditava ter pouco sentido. Assim, não cobria consequentemente o avanço do cavalo na ala da dama e desleixadamente deixava-se dominar na perspectiva tática.
Sempre comparara a vida ao xadrez: a obrigação das ações planejadas, de ilações implacáveis; a atenção totalizadora; o exercício ininterrupto de antecipar o futuro; a necessidade de ocupar posições centrais. Logo, nessa altura de sua existência, era natural que se desinteressasse também pelo xadrez. E por isso continuava movendo as peças mecanicamente, apenas adiando o desfecho verdadeiramente desejado com posicionamentos defensivos e volteios logrados por sua profunda experiência.
Absorto, pensou na família distante, nos amigos assoberbados e nos já mortos, no patrimônio acumulado sem por quê. Tais pensamentos confrontados com a fisionomia a um só tempo agônica e retraída de seu oponente, suscitavam-lhe o melancólico gozo irônico. Explicitamente permitiu ao peão adversário capturar en passant o seu peão da coluna do bispo, tornando quase inevitável sua promoção. Comprazia-se com a dúvida do contendor, seu receio de ciladas!
No momento em que a distinta audiência prorrompeu em aplausos e o homem do lado oposto do tabuleiro estendia-lhe a mão, sorriu profundamente. Já não era mais o campeão.
O velho enxadrista retirou-se do recinto sem tecer comentários ao jogo. De fato, aquele momento seria sua última aparição pública. Isolou-se numa pequena propriedade no interior, recusando-se a receber jornalistas, colegas e estudiosos, até sua morte. O grande campeão guardou-se em seu mistério e seu silêncio. Findou seus dias como a torre que lhe restara, naquela sua última partida: afastada do turbilhão dos movimentos, sem guarnecer posições importantes, alheia. Tranqüila.

3 comentários:

Aecio disse...

Cheque-mate na vida pra entrar na vida. Pimba de bom!

aecio disse...

antes que Leal apareça: eu sei: é Xeque-mate...

Dimas Lins disse...

Josias,

Grande crônica. Embora não tenha relação direta, este texto mais A volta Lembraram-me uma crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre a história de um publicitário que de repente fez a grande frase de sua vida. Nada pareceu ter mais significado ou necessidade de acontecer algo mais.

Um abraço,

Dimas Lins
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