sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Boa Vista


Um sujeito relaxado, que não liga pra muita coisa, até preguiçoso. Desses que aproveitam o chiclete usado, que se encontra escondido por baixo do assento da cadeira. Leva a vida assim, como se masca um chiclete gasto.
Era por volta das 2 da madrugada e ainda bebia num boteco próximo ao Pátio de Santa Cruz. A radiola de ficha fazia um barulho infernal, tocando todo tipo de brega. Já estava bêbado. Tinha fome também. Calculou o dinheiro que lhe restava; desistiu de comer. Pegou um cigarro do maço amassado, e chamou o garçom com cara de índio paraguaio: “Chefia, quanto deu aqui?”
Passara a noite toda atrás de mulher. Queria muito trepar. Não rolou com nenhuma das mulheres que topou; pareciam sempre não ter pressa para o sexo. Ele tinha. Não estava a fim de frescuras. Pensava: “Hoje é quer ou não quer?” Ou então, “Quer quanto?” Resolveu ir para um puteiro.
Na rua semi-escura apenas um ou outro bêbado, umas putas e dois travestis. Passou ligeiro. Não queria brincadeira. Se um daqueles travecos soltasse uma gracinha, matava de porrada. Dobrou à esquerda e foi dar na avenida principal do bairro. Há alguns metros um grupo de pivetes, quase todos tocados a craque, outros a cola, sacaneavam com um aleijado. Sem pernas, sobre uma tábua montada em rolimãs, esse não conseguia se livrar do grupelho de moleques. Aproximou-se da cena: com gritos e ameaças dispersou o bando. Odiava aquela gritaria! Nem se deu conta do perigo que corria...O aleijado gritava, com voz gasguita, um bocado de desaforos. Nem falava nem chorava. Olhava e mexia os braços na direção dos menores. Gritando, gritando... Era desagradável aquele seu grunhido. Lembrava o cio de cadela.
Ficou irritado; chegou-se mais perto do aleijado, pelas costas, e deu-lhe um cascudo tão forte que por um momento chegou a pensar que lhe tinha rachado o crânio. O miserável soltou um ganido medonho e caiu da tábua chorando muito. Do outro lado da rua os moleques gargalhavam. Deu as costas e seguiu. Os pivetes voltaram a se aproximar do sem-pernas.
No fundo estava chateado. Não gostava de fazer aquilo com velhos. Não sabia por quê. Talvez pela saudade do pai, do avô... Mas não gostava.
Chegou ao puteiro que costumava freqüentar. Cumprimentou Doninha, a proprietária, e algumas raparigas. Pediu bebida.
- Doninha, Yolandi tá grávida? – perguntou.
- Tá sim, não sabia?
- Não. Como é que eu ia saber? Faz tempo que não via essa daí.
- Seis meses de gravidez já.
- E ainda trabalhando?
- Eu já avisei a ela que esse é o último mês. Mas tem cliente que gosta.
- Isso é um bando de filho da puta! – comentou.

Decidiu dar todo o trocado que tinha para “aquela louca”, como a julgava. Simpatizava com Yolandi. Lembrou-se das vezes que fez programa com ela. E, ainda por cima, ela era muito nova. “Quantos anos deve ter essa menina? Uns 18 no máximo”, calculou. Pendurou a cerveja que havia pedido e saiu.
Quando quase acabava de atravessar a ponte, parou. Lembrou-se, deu meia volta e se dirigiu novamente à parte mais alta da ponte. Olhou em várias direções, pensou: “Essa merda de cidade é bonita”. Conferiu se vinha alguém, pegou a pistola que trazia e sacudiu no rio. Quase já estava esquecido do velho que havia matado há algumas horas.

5 comentários:

Ana disse...

Boa crônica, Josias!
Parabéns!

Ana disse...

Só mais um comentário: Recife é muito bonita mesmo...

Felipe Pimentel Lopes de Melo disse...

O desejo assassino, professor.

Dimas Lins disse...

Felipe,

Perguntei uma vez a um psiquiatra, amigo comum meu e de Josias, se o fato de andar com uma vontade danada de matar alguns personagens no meu texto, tinha algum significado mais escondido da minha mente delirante. Ele disse que é melhor matar no papel do que na vida real. Estou com ele.

Bela crônica, siga Ana Cláudia, a relatora.

Um abraço,

Dimas

Vitor S.K disse...

Man, não li muito da historia, mais vi que não tem nada haver com o quadro, esse quadro é uns dos meus maiores ídolos, ele é só o John Wayne Gacy, o palhaço psicopata, hoje ele já esta morto, porque ele recebeu uma injeção letal, mais ele sempre viverá e mentes dos parentes das pessoas que ele matou e estuprou...