
Breve é contorcido,
o rosto.
Em que aturdido
esgar?
Teria iludido
o gozo,
ou se combalido
ao tentar?
Só sei é que nesse estupor,
quão feia é a face do amor!
Espaço para pequenos relatos dos dramas, misérias e graça do cotidiano. Instantâneos do dia-a-dia que nunca lograram acontecer, mesmo que às vezes pareça o contrário... E, claro, poesia.
FALSO SONETO DO ABANDONO DO AMOR
Conduzido por Virgílio, Beatriz não encontrei.
Amordacei meus desejos num oco de infernal deserto,
que transformava em longe, o que em si, é de mim, tão perto,
tornando turvo em meu espírito o que de fato procurei.
Não deixei de galgar, à força, palmos de certeza,
concedendo aos vendavais o pano da preciosa veste.
Cerzida com, de Werther a entrega, e a paciência de Penélope,
pondo a perder, assim, a possibilidade da real beleza.
Entreguei-me ao temor crescente do abandono cínico
das ilusões, criando um bestial espaço imaginário,
como num gestual patético de um indiscreto mímico.
Rezem por mim, Senhores! que d´alma gélida arda fogo incendiário;
e que se despregue meu corpo do torpe ritual pantomímico,
pra que não mais traga o coração e sonhos envoltos num sudário.
25. 09. 2003
Que coisa?
Que coisa é que sem nome nos empresta um ato?
Não seria o gaguejo
antes que a ausência da fala,
a confusão do desejo?
Que ferida aberta na linguagem
faz calar o grito
e nos remete ao silêncio do interdito?
Poema extraído da prosa poética de Ana Areias,
especificamente do texto “Um outra coisa”.
http://ana-areias.blogspot.com/2009/06/uma-outra-coisa.html
PS: Como algumas pessoas reclamaram não entender esse post, segue um pequeno esclarecimento.
O poema é de minha autoria.
Apenas foi inspirado num pequeno diálogo, de autoria de Ana Areias, publicado em seu blog "Café com Leite".
Os textos de Ana são sempre muito poéticos, daí a facilidade para sacar deles... poesia!
A forma como exressei essa "inspiração" (Poema extraído da prosa poética...) segue a influência de Manuel Bandeira, quando intitula um de seus famosos poemas "Poema tirado de uma notícia de jornal".
Portanto, é isso. Um poeminha meu e um prosa em diálogo de Ana Areias, a qual vocês terão acesso acionando o link.
Abraços!
"Encruzilhada" - acrylic on canvas, de Marcio Melo. Retirado de: www.marciomelo.com/
A Saga da Fala
Se arrasta a lesma do tempo,
esmagada pelo peso das palavras.
Letras vazias, como adereços,
ataviam rotas vestes,
que cobrem as apodrecidas carnes
do esquálido corpo
da rotineira hipocrisia de nossa voz.
Voz sempre velada, que perpetra
disfarces.
De cúpida origem e alma avara.
Fala que costura engodos
e imprime sorrisos – simpáticos simulacros dos ódios...
Fala firme e tranqüila, inscrita em mansa face:
Ah! justo deus, tal a humana sorte
para o nosso tagarelar insano:
que dissimula desejo de morte
por trás de cada banal ‘eu te amo’.
O pulo do gato
No chão
o gato
às vezes
é caça
Às vezes
é o cão
que força
o salto –
o cão
em sua
raiva atávica
Ao gato
no escuro
resta o pulo
e a segurança
do muro
Mas
quem se guarda
detrás
do muro,
de outro mal
se esquiva
e improvisa
sobre o tal
uma nova
cerca
Com a qual
o gato
em sua fuga -
suspensão
do corpo e da vida -
fará contato
Une
o destino infame:
o medo do dono
do muro
e o medo
do gato
do cão -
E a pele e o arame
no toque,
no choque
que é o fim:
eletrocução