sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Poema


Meu funeral


Alívio ao ver-me ali ao lado,
parado, inerte sob o céu plúmbeo;
cercado por dissimulado cortejo,
como convém a qualquer moribundo.

No pálido rosto, um esgar de riso;
declinante da vida sem dor e sem dó.
Tal ricto, acaso, assome do espasmo,
da hipócrita máscara que reina ao redor.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Poema


No mais alto mirante: Narciso


Exausto galga o cume.
Abaixo,
o mundo inteiro ao sabor da vista;
mas, há razão pra que se insista -
exânime -
fixar em algo o olho gasto?

Pra que melhor perspectiva?
Inútil.
Como qualquer Narciso em outro espaço,
o sal da vida é pra si nefasto,
impuro,
e tem no outro o expressar de um susto.

Vive em claustro,
em redor do feio;
vence a subida glamurosa do mirante,
lasso,
para afinal ver-se a si mesmo num pequenino espelho!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O Milagre


"Quem diria! Eu mesma nunca pensei que fosse se tornar algo sério! Essas coisas são tão engraçadas...”. Eram com esses pensamentos que Lurdinha voltava para casa. Há mais de um ano conhecera Jessiel. Um rapaz educado, doce e muito religioso. Era evangélico; vivia para a igreja.

Nunca se imaginou namorando com um evangélico. Sempre detestara a insistência protestante de converter a todos, sua insinuação de que qualquer outra religião é um equívoco. Ela própria era católica, freqüentava igreja, comungava. Porém nunca perdera o espírito ecumênico. Mas aconteceu: namorava há mais de um ano com Jessiel. E o amava.

“Com ele é diferente”, pensava. Era verdade que havia um desejo, não manifesto, de que ela trocasse de fé. Repetidamente pediu a ela que comparecesse a um culto: “Só para você conhecer”, dizia ele. Ela nunca fora. De certa forma, quis construir a relação mantendo essa espécie de identidade: “Nós nos gostamos, mas temos crenças diferentes”. A continuidade de tal fato era até um sinal de que ninguém se impunha ao outro, que mantinham uma relação de igualdade.

“Mas hoje vou lá. Vou fazer uma surpresa a ele.” Ainda se lembrava do dia anterior, quando ele mais uma vez sugeriu: “Vá lá, meu amor. Você vai gostar”. Acho até que ele me chama, mas não tem mais esperanças de que eu apareça em sua igreja, pensava Lurdinha. Estava com saudades, com vontade de vê-lo e a única forma era encontra-se com ele no culto: “Jessiel, aquele ali, não troca um compromisso da igreja por nada nesse mundo!”, costumava dizer às suas amigas.

Passou em casa. Tomou um banho, vestiu-se, pegou a bíblia e saiu. No caminho, pensando sozinha, não deixou de se perguntar com certa graça: “Será que um dia me converterei?”. Não tinha problema; se acontecesse seria uma decisão livre dela.

Não esperava tanta gente. Havia um notório clima de euforia. As pessoas gritavam, “Jesus! Aleluia Jesus!”. Era, de fato, um ato barulhento. Por encontrar dificuldade em aproximar-se do púlpito, deixou-se ficar junto da porta de entrada, encostada à parede.

Todo testemunho de um milagre é cercado por uma combinação de deslumbre e terror, medo. Mas Lurdinha sentia apenas terror. Todo o seu corpo tremia, seus olhos verteram lágrimas. Quando o paralítico levantou-se da cadeira de rodas e, a princípio com dificuldades, mas depois de forma natural e consistente, começou a andar e pular, sob a ovação orgiástica da assistência febril, Lurdinha deixou tombar a bíblia. Mal se sustinha em pé. Com a alma revirada e a mente embotada, só conseguiu pronunciar um murmúrio

“- Não! Não pode ser! Como Jessiel pôde fazer uma coisa dessa?!!”

domingo, 11 de novembro de 2007

Dialéticas

Apenas o escorpião, além do homem, suicida-se.
Suicida-se unicamente, e sempre, quando está cercado por fogo.
Ah, o livre arbítrio!
A liberdade humana...
Que se daria
se fôssemos escravos da rígida disciplina
cromossomática daqueles insetos?

Poema


A corda mundo


Frouxos nós
corredios
quase desatados nós
estamos
Nós, cegos nós?

Que se nos amarra?
Sós,
Cada qual é fibra solta,
amontoado feixe,
que não se adere
a nós.

Nem baraço
nem laço
salvador.
Anódino,
cada traço,
se desfiando
lasso,
em derredor.

Soltos
Nós
Sós estamos
Nós, cegos nós?

domingo, 4 de novembro de 2007

Uma postura diante da vida

Não gostava muito daquelas bolachas.
- Não sei porque insisto em comer?
E pensava que, se fosse em um outro dia, poderia ter ido à praia. Mas acordou sem disposição - não dormira bem também. Gostava de praia: o sol, o clima de festa, de alegria; as mulheres e suas... Ah as mulheres! Teve um dia que, jurava, viu uma delas fazendo top less. Gostava de praia! Lembrou-se das vezes que o irmão chegava em casa vindo de Boa Viagem... Nunca mais vira o irmão - "Será que ainda mora com mãe?", indagou-se. Nunca fora à praia com seu irmão.

Morava só. Em alguns momentos gostava de ficar só. Acostumara-se, parece.

E olhava de longe um grupo de crianças do bairro jogando bola. Que barulhada que faziam! Gostava de ver futebol. Tantas vezes sonhou em ser jogador. Imaginava um estádio lotado, numa decisão de campeonato, e ele marcando o gol da vitória. E a galera inteira gritando o seu nome. Era tímido mas gostaria de ser, ao menos uma vez, o centro da atenção de todos. E ser admirado...

Tarde quente. Muito quente. "Vento preguiçoso que não se mexe", pensou. Soube que estava passando um filme legal em um dos cinemas da cidade. Teve vontade de ir. Mas era difícil. Morando no Alto do Capitão, tinha que descer o morro, se deslocar muito até a parada mais próxima... Era muito cansativo. Mas gostava muito de filmes. Não gostava de filmes com legenda - não dava tempo de ler. Impressionava-se com quem conseguia ver filme legendado! Estudos.

Não gostava de domingos. Sentia-se mais só que nos outros dias. À noite, às vezes ia ao culto, outras não. Tinha dúvidas... E pensou muito, olhando pela janela: na vida, no que poderia ter sido; formulou hipóteses alternativas: se eu fosse rico, se tivesse um carro, se fosse muito conhecido; se tivesse muitos amigos... E a noite chegou. E ele estava, de fato, desanimado e sem disposição. Tateou a parede em busca do interruptor. Acendeu a luz. Seus olhos correram sua pequenina moradia: oca, pobre, vazia e silenciosa. Decidiu escutar o rádio. Foi até à mesa, onde estava o aparelho, pegou-o e voltou para junto da janela. Era um programa bastante conhecido seu....

Estava triste. Ajeitou-se com dificuldades no assento. Fazia tempo, mas muito tempo mesmo, que precisava de uma nova cadeira de rodas.

Poema


Esta noite


A lua crescente -

sorriso de astro -

é o irônico ricto da noite,

interna,

na qual me desfaço.