"Quem diria! Eu mesma nunca pensei que fosse se tornar algo sério! Essas coisas são tão engraçadas...”. Eram com esses pensamentos que Lurdinha voltava para casa. Há mais de um ano conhecera Jessiel. Um rapaz educado, doce e muito religioso. Era evangélico; vivia para a igreja.
Nunca se imaginou namorando com um evangélico. Sempre detestara a insistência protestante de converter a todos, sua insinuação de que qualquer outra religião é um equívoco. Ela própria era católica, freqüentava igreja, comungava. Porém nunca perdera o espírito ecumênico. Mas aconteceu: namorava há mais de um ano com Jessiel. E o amava.
“Com ele é diferente”, pensava. Era verdade que havia um desejo, não manifesto, de que ela trocasse de fé. Repetidamente pediu a ela que comparecesse a um culto: “Só para você conhecer”, dizia ele. Ela nunca fora. De certa forma, quis construir a relação mantendo essa espécie de identidade: “Nós nos gostamos, mas temos crenças diferentes”. A continuidade de tal fato era até um sinal de que ninguém se impunha ao outro, que mantinham uma relação de igualdade.
“Mas hoje vou lá. Vou fazer uma surpresa a ele.” Ainda se lembrava do dia anterior, quando ele mais uma vez sugeriu: “Vá lá, meu amor. Você vai gostar”. Acho até que ele me chama, mas não tem mais esperanças de que eu apareça em sua igreja, pensava Lurdinha. Estava com saudades, com vontade de vê-lo e a única forma era encontra-se com ele no culto: “Jessiel, aquele ali, não troca um compromisso da igreja por nada nesse mundo!”, costumava dizer às suas amigas.
Passou em casa. Tomou um banho, vestiu-se, pegou a bíblia e saiu. No caminho, pensando sozinha, não deixou de se perguntar com certa graça: “Será que um dia me converterei?”. Não tinha problema; se acontecesse seria uma decisão livre dela.
Não esperava tanta gente. Havia um notório clima de euforia. As pessoas gritavam, “Jesus! Aleluia Jesus!”. Era, de fato, um ato barulhento. Por encontrar dificuldade em aproximar-se do púlpito, deixou-se ficar junto da porta de entrada, encostada à parede.
Todo testemunho de um milagre é cercado por uma combinação de deslumbre e terror, medo. Mas Lurdinha sentia apenas terror. Todo o seu corpo tremia, seus olhos verteram lágrimas. Quando o paralítico levantou-se da cadeira de rodas e, a princípio com dificuldades, mas depois de forma natural e consistente, começou a andar e pular, sob a ovação orgiástica da assistência febril, Lurdinha deixou tombar a bíblia. Mal se sustinha em pé. Com a alma revirada e a mente embotada, só conseguiu pronunciar um murmúrio
“- Não! Não pode ser! Como Jessiel pôde fazer uma coisa dessa?!!”